Acompanhei algumas polêmicas
sobre a vida e obra de Roberto Bolaños durante os últimos dias na América
Latina. Humoristas importantes confessando que nunca assistiram quaisquer
episódios dos seriados do autor/ator; comparações entre Bolaños e Charlie
Chaplin; contestações sobre estas comparações; menções de que o funeral do
artista foi muito maior do que a sua obra.
Eu, enquanto
escritor, confesso que sou relativamente avesso às críticas e às abordagens de
obras após a morte de seus autores. Concordo que bons autores devem ser
estudados e celebrados, mas deploro os exageros. Isto porque atrás de cada
autor consagrado vem não só uma avalanche de admiradores, mas também de
críticos literários – muitos deles também escritores – e acadêmicos de toda
ordem que, vestindo suas intelectualidades de vaidade, elaboram os mais
impensáveis vieses de análises, as mais absurdas teorias, e acabam colocando
palavras e metodologias psicocomportamentais e/ou psicossociais – sempre
grandiosas – nas bocas e mentes de autores mortos que não estão mais aqui para
contesta-las ou para apenas dizerem: “Agradeço o seu elogio, mas a coisa é bem
mais simples do que você está pensando”.
Por isso não
vou me contaminar aqui neste texto com manias de grandeza comentando a obra de
Bolaños, e não vou ousar dizer que Chapulin Colorado, por exemplo,
derruba delimitadores sociais ao apresentar o herói desastrado, sem estilo
padrão, sem o charme e sem a beleza hollywoodiana, promovendo uma espécie de
inclusão, ao mostrar que qualquer um pode ser herói. Não, não vou dizer.
O personagem El Chavo também
não é um anarquista ou um antipolítico protestando contra o Estado, Estado este
que não é representado pelo Senhor Barriga (Zenón Barriga),
sempre contestado (atacado) por El Chavo quando aparece em
cena para cobrar imposto, digo, aluguel. Ou será que haveria aí, entre estes
dois personagens, uma mensagem oculta do tipo: “Famintos, protestem contra a
injusta divisão de riquezas do mundo!”? Duvido!
Tampouco Seu
Madruga (Don Ramón) não representa as classes trabalhadoras
oprimidas tentando fugir das rédeas patronais implacáveis e do curral alienador
das linhas de montagem, ao se negar este personagem a trabalhar sim, mas se
negar a trabalhar somente sob as ordens de um patrão, já que o personagem nunca
demonstrou de fato não gostar de trabalho, pois sempre aparece em cena tentando
empreender algo, seja como pintor, engraxate ou marceneiro.
É claro que não podemos dizer
que aBruxa do 71 (Doña Clotilde) representa pelo menos duas
críticas: uma à ditatura religiosa da América Católica e outra à
censura à pouca liberdade de culto. Não, não podemos dizer isto, mesmo que ela
tenha um cachorro chamado Satanás, e que o único episódio onde a
casa de Doña Clotilde é mostrada por dentro se chame Espíritos
Zombeteiros.
Por fim, é um risco imenso
dizer que para coroar toda esta improvável trama política, cultural,
socioeconômica e filosófica, eis a figura do Professor Jirafales,
levando-se em conta que professor é (ou deveria ser) de fato o único posto
realmente poderoso (sem a volatilidade do poder) de uma sociedade.
Ainda em um último fôlego de
grandeza, poderíamos dizer que sim, que tudo isso é verdade, pois que El
Chavo seria de fato uma versão moderna e infantil inspirada em
Diógenes, O Cínico, filósofo grego que viveu em um barril, que era totalmente
livre, dizia o que queria e era um grande contestador das instituições. El
Chavo é tão livre e contestador o quanto Diógenes.
Mas não, não é nada disso. São
personagens criados apenas para fazer rir, e não para fazer pensar, no sentido
filosófico e sociocultural. São personagens cuja a matéria prima são o
cotidiano, as situações simples e o tornar ridícula a realidade. Mas esperem: é
justamente aí que o gênio de Bolaños começa a surgir. Gênio? Alguém leu
gênio? Sim, gênio!
A ascensão artística de
Bolaños acontece na Década de 1970, uma década importante em que – dando
continuação à Contracultura dos hippies na Década de 1960 – esta década
posterior consolidou o desejo de liberdade social, política, cultural e sexual
de jovens de variadas idades, em um abrangente movimento
que procurava romper com o passado conservador, com o antiquado, com
o cafona, com o antigo, com os preconceitos. É claro que o capital tratou de
industrializar toda esta ideologia e as suas formas de manifestação. Todavia
isso não tira a imensa importância das décadas de 1960/70 no cenário da cultura
ocidental. Durante esses anos, nos fenômenos de massa, a televisão superava
definitivamente o rádio; pela tecnologia o ser humano já tinha chegado à lua;
na música Woodstock sacudiu e provocou o mundo; a banda The Beatles
já tinha causado uma revolução musical e seus componentes já haviam se separado;
o Rock and Roll – sempre rebelde – estava no auge; na religião místicos de todo
o mundo aguardavam e celebravam a aproximação da tão esperada Era de Aquários;
na cultura e na antipolítica os hippies se multiplicavam pregando uma forma
alternativa de vida e contestavam o Estado; o conceito Pop se universalizava e
se consolidava; na chamada Sétima Arte clássicos revolucionários comoHair (final
da Década de 1960) e Jesus Christ Superstar
(1973) promoviam definitivamente a cultura jovem e davam o tom da
Pós-Modernidade; os futuristas 2001 - Uma Odisseia no Espaço (2001: A
Space Odyssey) – ficção científica; Laranja Mecânica (A
Clockwork Orange) – psicossocial e político; eBarbarella –
erótico – já tinham apresentado ao mundo novos caminhos e novas
dimensões de pensamento, tanto no conteúdo intelectual, quanto na profecia do
que seria a ciência do futuro (nem sempre acertaram), e de como a mesma
tecnologia poderia servir ao cinema e à TV; Giovanni Boccacio apresentava
ao mundo suas sátiras polêmicas recheadas de sexo tido como desregrado, e com
uma profunda crítica à sociedade; no cinema da Década de 1970
brilhavamhumoristas pós-Jerry Lewis como Peter
Sellers, e gênios do humor e da crítica sociocomportamental como Wood Allen;
seriados como Jeannie é um Gênio (I Dream Of Jeannie) e A
Feiticeira (Bewitched) davam um show na TV mundial da Década
de 1960/70com um humor requintado e banhado de beleza humana e cênica.

Ao olharmos
para a vila onde mora El Chavo e toda a turma, encontramos as
mesmas situações. Lá os ridicularizados são os adultos, os mesmos adultos que
na sociedade real são contestados pela juventude e pelas crianças. Neste
caso El Chavo “vinga” a juventude e a criançada ao
ridicularizar o professor que fica bobo e irracional rente à amada; a mulher
que nunca reconhece os seus erros e os de seu filho, por isso caba tornando-o
um idiota mimado; o senhorio que cobra alugueis impiedosamente, mas é sempre
atingido ao entrar na vila; e o homem que não sai para trabalhar negando a sua
posição milenar de respeitável mantenedor da casa e da família. Ao criticar os
modelos tradicionais da sociedade ridicularizando-os, El Chavo,
assim comoChapulin, também conquista a juventude e o público
infantil. Como se não bastasse, não deixa escapar a figura da bruxa, que sempre
assombrou as crianças, ridicularizando-a também através de zombarias e
deboches.
Esta
evidência da fórmula do sucesso dos seriados de Bolaños ganha força quando ao
notarmos que em muitos países os primeiros personagens do seriado El
Chavo a ganharem o status de ícones da cultura pop, foram,
inicialmente Seu Madruga (Don Ramon), e depois o Quico.
Ora, estes dois são justamente os personagens com maiores doses de Nonsense,
seja nas palavras, na pouca inteligência ou na inaptidão para o êxito, nas
expressões faciais e nos movimentos físicos desengonçados e hilariantemente
engraçados. Nestes mesmos países, posteriormente Chaves (El Chavo) e
Chiquinha (la Chilindrina) subiram ao altar do pop também, e depois
deles o próprio seriado que, por sua vez, consagrou toda a turma.
Neste viés
de análise que acabamos de dimensionar, Bolaños é um gênio da criação de
personagens cômicos infantis, das palavras e das situações aparentemente
simples, mas com desfechos inusitados e muito divertidos. Tudo isto aliado a um
estilo humorístico como o Nonsense, capaz de conquistar a juventude
em variadas gerações, leva o autor e a sua criação o patamar de ícone da
cultura pop.
Ainda assim não podemos dizer
que Bolaños pensou milimetricamente todo este processo de ridicularizar e
desconstruir alguns dos modelos sociais sólidos, e assim agradar crianças (pela
inocência do roteiro) e jovens (pelo quebrar das regras), se consagrando como
um ídolo. O verdadeiro artista possui a criança em estado natural e
praticamente inconsciente. Ora, quase nunca um processo bem sucedido na arte é
pensado milimetricamente em todos os detalhes. Não me refiro à indústria da
comunicação ou à mídia, mas à arte em si. E aí reside mais uma façanha do
gênio, que é uma espécie de inteligência inconsciente, capaz de observar e
entender profundamente uma sociedade, conseguindo recria-la de uma forma única
e original. É como se na parte criadora de todo cérebro e coração artísticos
houvesse um configurador automático que, movido pelo talento, produzisse toda
esta magia da criação.
Antes de
terminarmos preciso lembrar que eu falei no início que há algo que poucos
repararam (reparar é diferente de apenas ver) na criação de Bolaños. Pois bem:
é o coração. Aquele coração que está no seu primeiro personagem de sucesso,
o Chapulin Colorado. Qual herói, dentre todos os que já foram
criados, tiverem o coração como um emblema? Os símbolos de cada herói
representam o seu poder principal. Isto não nos deixa dúvidas de que o
principal poder deChapulin/Bolaños é o amor. O mesmo amor que El
Chavo requisita o tempo inteiro. Talvez seja apenas, e tudo isto, o
que Bolaños quis nos dizer: “Amor!” “A importância que tem o amor!” “Amem!”.
O amor, o verdadeiro amor, que
está a par de tudo, que está conectado com a vida real e com a fantasia; amor
que conhece as mazelas e as virtudes; amor que vislumbra inúmeras
possibilidades. O amor, quando revertido em forma de verdadeira fraternidade,
traz em si um conhecimento automático do que é o mundo, do que é a vida.
Qualquer um que alcance o amor fraternal, penetra na ciência de entender o
próximo e os próximos.
Nesse sentido o coração
de Chapulin, nos convidando ao amor, é o símbolo máximo
da herança de Roberto Gómez Bolaños para nós.
Os ícones mais marcantes e que
mais transformaram o mundo não foram apenas os que mais pensaram, foram também
os que mais amaram.
E afinal, foi sempre essa a
bandeira maior da criança e da juventude transformadora e formadora de opinião:
o amor! E Bolaños, de alguma forma, sabia disso. Ele sabia que
o amor é genial.